sábado, 4 de julho de 2015

E São Sebastião nasceu em mim...


Sair de “TaguaYork”, uma cidade desenvolvida e com muitas opções de lazer e parar em uma cidade que nem sequer tinha asfalto, não foi muito atraente para alguém que entrava na adolescência. Pois foi isso que aconteceu comigo. Caí de pára quedas em São Sebastião e aqui estou até hoje.
Fui estudar na única escola de ensino médio que havia na época, o famoso Colégio Centrão (CEM 01), que se tornou celeiro dos principais ativistas culturais da cidade, até construírem o São Francisco, mais conhecido como Colégio Chicão, que deu continuidade a essa história. Tudo por causa de uma professora maluca chamada Leísa Sasso e de tantos outros professores que abraçaram suas idéias.  Uma boa lembrança desse tempo de escola eram os shows da banda Orgasmo. Banda que tinha uns dois cabeludos e um cara que dizia tocar baixo. Rapazes que até hoje estão por aqui fazendo música e militando e que são Dudu Cabeção, Emerson e Altair. Este último foi atrás do amor na Bahia… Eternamente, Orgasmo. Ops! Eles e mais alguns outros roqueiros criaram essa identidade underground que São Sebas tem.
Foi nesse Colégio Centrão que fiz parte de uns dos primeiros grupos de teatro daqui: “Os Sobrinhos do Seu Tião”. Nome esse que homenageava um pioneiro que chegou bem cedo por essas bandas de cá e deu seu nome a essa cidade. Não é “São”, mas é Tião Areia. E nessa mesma escola tinha um vigia metido à artista chamado Paulo Dagomé. E junto com ele, surgiu um grupo que “sarauzou” a cidade e rendeu frutos que hoje estão maduros. Foi no palco do SarauRadical que surgiram poetas, músicos e ativistas como: Don Ramalho, Thiago Alexander, Sueli Martins, Nanah Farias, Devana Babu, Vinícius Borba e tantos outros. De início reuniam-se na casa de um baiano arretado e talentoso chamado Máximo Mansur. Depois de lá ganharam os palcos de uma pizzaria e depois de todo o DF. E assim os Radicais Livres fizeram sua história por aqui e hoje rendeu frutos como: Super Nova e Levante Poético fazendo Domingo no Parque e Poesia de Quinta, respectivamente.
Aqui também é a cidade do Reggae Raiz e do Reggae Maranhense.  Quem lembra da Casa de Reggae que tinha em frente à Praça La Bodeguita? (Porque esse nome?) Turma boa da vitrola, só mandando “pedradas”. Aliás, nordestino aqui é que não falta, principalmente, maranhense, piauiense e baiano.  E pra continuar essa história regueira, reside aqui o único grupo Rastafári do DF, o famoso Congo Nya, que por aqui faz história e muda muitas histórias. E a praça até hoje continua sendo a do Reggae. Porque o “Reggae na Praça” continua vivo, graças ao Calango Rasta que não deixa essa cultura morrer. Valeu Samuka e Rodrigo Allman!!!
E se o samba nasceu na favela, aqui não poderia faltar, porque tem Kaoka, Pura Pegada e Sambativo que não deixam o samba morrer. Fazendo uma Roda de Samba linda. É o projeto São Samba fazendo acontecer.
E para os artistas e malucos que passam por aqui, tem a casa mais feminista de todas. CASA FRIDA. Disseminando FEMINISMO, REVOLUÇÃO, IGUALDADE, DIVERSIDADE E AMOOOOOOR.  Tudo puxado por uma baiana cheia de dengo e dendê… rs! Né, Hellen Cristhian? E as mulheres daqui são tão empoderadas que fizeram até um Cine Clube Feminista para fazer formação feminista por toda a cidade. As mulheres cantam e escrevem, produzem um fanzine e tudo “De Salto Alto”, pois por baixo elas não ficam.
O IFB daqui é diferenciado, pois uma professora sonhadora muda realidades das alunas e alunos com aulas e eventos transformadores. Né, Letícia Érica?
E se é pra falar de rap, São Sebastião faz história com: Imagem de Rua, Diga How, Criolas, Atitude Feminina e GM Rap que levam com orgulho o nome cidade, onde quer que se apresentem.
A galera aqui é tão organizada que o Fórum das Entidades Sociais foi exemplo para todas as outras cidades do DF e continua organizado, ativo e participativo.
Aqui as crianças têm voz e vez, tudo por causa da Ludocriarte. Brinquedoteca Pública da cidade, com crianças lindas que adoram ouvir as histórias do Tio Isaac Mendes.
.E se aqui tem povo inteligente é porque a Biblioteca do Bosque traz muito aprendizado e incentivo à leitura. Valeu Sebastião e Dona Dilma!
E como tem artista nesta cidade, viu! Pintam e bordam. Chibi Ahou (Diva dos cabelos maravilhosos e dos desenhos lindos), Ricardo Caldeira( anotem esse nome), Carlione (sou fã), Estela Sena, Nanda Pimenta (poetiza mais performática da cidade), Anne Botelho (artista viajante),  Bia Estiano (vi arranhando os primeiros acordes e hoje destrói no violão), Edvair Ribeiro, Priscilla Sena (Diva Black), Luiz Próton, Tiago Xavier( o eclético), Kevinny, Zeca Oreba, Marcius Cabral (nosso Rei do Blues) e o saudoso Nelson Poeta, que se foi, mas deixou seu legado de poesias em nossos corações…
Pra quem gosta de “Modão”, a dupla Fábio Jr. e Sideron, capricha no “Modão” e arrebentam na viola caipira. Porque goiano aqui também tem de monte. Tem até um coletivo de violeiros chamado: “Amigos da Viola”. Pense num trem bão!
Tem picadeiro, malabarista e mágica, porque o circo armou sua tenda aqui por tempo indeterminado, fazendo criança voar e andar nas alturas, tudo isso com a ajuda de uma perna de pau, claro. Graças a um palhaço “riponga” que faz com que esse espetáculo não pare. Um tal de Eduardo Marruci. E se aparecer do nada, um coelho da cartola é porque o Jefferson Duprado é profissional na mágica. Assim o circo fica completo!
Parafraseando Raul Seixas… É melhor ser metamorfose ambulante do que ficar na mesmice. Por isso o Instituto Metamorfose, vem descobrindo talentosos artistas plásticos e colorindo os muros das escolas da cidade. E, esses dias, descobri que o Chico Metamorfose ainda canta! Acompanhado da molecada Instituto que não para de fazer arte por aqui.
E quando assunto é festa junina aqui só tem quadrilha campeã. Estão aí a “Num só Piscar” e a “Formiga da Roça” que não me deixam mentir.
É isso. Essa Quebrada de Rocha que foi tão importante pra capital, pois foi do nosso barro que saíram os tijolos para os palácios. É a eterna Olaria, Agrovila, favela, periferia revolucionária. E é por isso que ela nasceu não só do barro, mas nasceu de seu povo. Nasceu aqui dentro do meu coração, minha cidade querida, que nasceu em mim.
Parabéns São Sebastião. 22 anos de puro amor!

Obs: Pra fazer revolução, a quebrada precisa de união. Nossos inimigos são outros!