sábado, 4 de abril de 2015

A cruz do menino Jesus!


Para: Terezinha Maria de Jesus


Quantas de nós
Ainda seremos arrastadas?
Quantas de nós?
Perderemos nossos filhos?
Quantas de nós
Não saberemos mais o paradeiro dos nossos maridos?


Ainda não nos tiraram do tronco
Apanhamos todos os dias
Com o chicote da hipocrisia.


E o  carrasco carrega um  fuzil
E uma farda que o Estado vestiu
O Estado é como Pôncios Pilatos
Que lava suas mãos
E deixa a PM fazer a função.


E enquanto eu fazia minha oração
Pedindo proteção para Jesus
 O meu Jesus era crucificado
Mesmo sem ser  culpado.


E enquanto rezava para Jesus Salvador
Meu Jesus
Nem sequer se salvou.


Meu Jesus não era sábio
No entanto, trazia consigo
 A pureza das crianças
Maior dádiva
De um mundo sem esperança.


Me sinto como Maria
Com o filho morto nos braços
Um Jesus sem ser culpado
Mas que foi crucificado.


A cruz
Agora terei que carregar
Assim como aquelas mães
Que carregam suas dores
De um história que se repete
Sem ter data pra terminar.


Mães de Maio
Mães dos morros
Mães dos becos e vielas
Mães Pretas
Que carregam a cruz
De um filho morto na favela.


Cruz do sistema
Que crucificam nossos filhos
E deixam as chagas
Feitas com marcas de balas.


Para o Jesus de hoje
Não haverá ressurreição
Mas sei que subirá ao céu
Enquanto eu subirei o morro
Todos os dias  com a dor
E o sofrimento no coração.


 E quando chegar a minha vez
Eu terei a certeza
Que Jesus é negro
É criança
E é meu.


Jesus que deixou a cruz
Para eu carregar
Um Jesus que mesmo sem ser culpado
Pagou com a vida
E foi  crucificado.



(Karlinha Ramalho)











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